Despertámos o vulcão em nós

O desejo de voltar ao Faial era grande. Depois de superar os 48km numa das provas mais emocionante que vivi em 2015, decidi que era o local ideal para me estrear numa ultra endurance. Havia mais Faial para descobrir, pé ante pé.
O desafio era grande. A primeira vez na distância, a primeira vez com um desnível positivo de 3200 metros.


Às 5 da manhã, hora de partida, o coração palpitava. Pulávamos e saudávamos. 3, 2, 1, e estávamos a viver o Trail da Ilha Azul. Tínhamos pela frente 70km para atravessar a ilha a correr. Pirilampos invadiram os montes e ruas da Horta. Fomos uns privilegiados. Tínhamos a ilha do Pico e São Jorge à vista. Fomos brindamos com um nascer do sol revitalizante. Cheiro a menta e uma brisa pura.
Seguimos vibrantes e com ritmo até que a montanha mostrou que ela é que manda.

O tempo mudou. Se o objectivo inicial era superar os 70km, houve momentos que pensava como seria possível correr com a intempérie que surgiu. Esse passou a ser o maior desafio e a minha maior superação. Nunca tinha corrido naquelas condições por tanto tempo. Acredito que quem não conhecia a caldeira não tinha noção da cratera, de cortar a respiração, que tinha ao seu lado. 
O vento soprava a uma velocidade superior ao meu peso. A chuva feria o rosto e o nevoeiro não permitia ver quem seguia a 20 metros. Baixava-me para conseguir alguma estabilidade e repetia consecutivamente “não pares, continua”. O tempo não ia melhorar e parar seria o fim.

Sentia-se alguma exaustão comum em todos os atletas que passavam. “O que é isto?”, eu repetia “é surreal”.
A montanha é assim, e o Faial mostrou quem manda. Queremos aventura tivemos dose extra.

Com 50km feitos, o abastecimento da Casa do Flamingo foi um “abraço quente”. Pensei num banho quente, no jantar e na minha cama. Numa fração de segundos senti que o meu cérebro tentou trair-me “agora ficavas aqui, no quentinho a comer e a descansar”. Só que não! Foram cerca de 2 minutos para respirar, hidratar, abastecer. “Muito obrigada, boa tarde a todos. Já só faltam 20km”. E fui. Fomos. Nós e um Faial que desconhecíamos.


O Trail é emoção, e esta prova marcar-nos-á para sempre. Mais uma vez o Azores Trail Run permite-nos levar recordações únicas e quem foi repetente, como eu, já sabe que pode voltar porque nunca saberemos como esta “força da natureza” nos irá brindar.
Mais respeito, foi o que ganhei pela montanha e por quem está por trás da organização destas provas.
O Mário Leal, director da prova, comentou, no dia antecedente à prova, que não interessa a distância que percorremos. Há um limite muito pequeno entre o que podemos precisar ou não do material obrigatório. Acredito que as desistências em todas as distâncias confirmaram isso. Foi duro. Muito duro.

Faltavam os 20km para o vulcão dos Capelinhos, 20km para cruzar a meta, mas até lá ainda muito para superar.
As levadas, não se percebia onde terminavam e começava o trilho. A água corria com força inexplicável e em alguns riachos temi ir na corrente tal era a força. Repetia em silêncio “vai”. Pensava nos meus, que à distância diriam o mesmo.
Os cabeços desafiaram todas as minhas forças e percebi o significado de correr com o coração. As pernas pesavam de tanta terra, da lama, dos quilómetros. O coração impunha ritmo, se abrandasse ia arrefecer. Nas subidas, não permitia que a força fosse exercida só nos bastões e lutei para distribuir pelo corpo toda a energia que precisava para continuar.
As descidas eram caóticas, pareciam um manto de lava frio. Nunca sabíamos se iríamos enterrar apenas o pé ou se iria tapar até aos joelhos. Vi quedas aparatosas, depois dos sustos vinham as gargalhadas das figuras que fazíamos!
“This Is crazy!!”, ria a Amy, enquanto tentávamos dar dois passos sem cair. E era realmente uma loucura inexplicável!
Já ouvia a voz do César ao longe, o speaker gritava, mas eu sabia que ainda faltavam uns 5km. Emocionei-me. Sabia que estava mais perto de alcançar a meta.

Entrei no último quilómetro, estava a correr no vulcão dos Capelinhos e mal acreditava que estava ali, cerca de 11h30 depois da partida ia cruzar a meta. Estava ali mesmo à minha frente.
Este ano não houve salto, estava feliz e ia buscar forças para o fazer, mas havia um sem fim de pensamentos na minha cabeça.
Foi uma prova com muitas sensações diferentes, muitos quilómetros sozinha com condições adversas, muitos momentos de entreajuda, muitos sorrisos, dúvidas, receios, mas acima de tudo a conquista de um objectivo. O mês de treinos não tinha sido o melhor e a força da família e amigos foi fundamental. “Vai lá e tenta”. Obrigada! Muito obrigada!


Está na hora de voltar à realidade. Tempo de adormecer o vulcão em nós e viver a saudade que nos deixa.
Para o ano virão mais bravos descobrir o que afinal tem o Faial de especial! Adianto já, tudo!

Em breve a reportagem da prova no programa SIC Notícias Running! Obrigada a esta grande equipa que tornou esta aventura possível.

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2 Comments

  • Rui Pinho

    Desafiar e dobrar o que achávamos serem os nossos limites, encontrar motivação, desfrutar do que a natureza nos dá e apreciá-la no seu esplendor, é a essência do Ultra Trail. É a simbiose perfeita. Nem tudo é fácil ou bonito, mas ficámos marcados pelo melhor. E por isso voltámos.
    Parabéns pela conquista!

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